terça-feira, 14 de outubro de 2014

CAMILA A MUTANTE



CAMILA  A  MUTANTE

A noite passou aconchegante e já se ouvia os  primeiros cantos dos pássaros na cidadela, Camila se mexe na cama de colchão de penas e se espreguiça deliciosamente tocando sem querer a perna de Diego, ele desperta e a fita nos olhos, mesmo sonolento ele a enxerga linda e sorridente. Ela sussurra no ouvido de Diego:
Dormiu bem amor?
Sim, minha vida..
Ele a beija na testa e se levanta, aonde caminha até a janela, as flores sorriam aquela manhã de primavera, o sol morno brilhava dourando o chão interiorano, Diego abre a janela e respira profundamente o ar límpido, vai até a cozinha onde coloca água para passar um bom e perfumado café.
Diego era um homem comum, tinha um sotaque forte de lenhador montanhês e costume de quem foi criado em meio à liberdade do campo e a vida simples e honrada, ele trabalhava numa serralheria e, desta arte vinha o sustento da sua casa e o da família. Camila tinha vindo de uma cidade grande e turbulenta, ao passear pela cidade encontrou a felicidade ao lado de Diego e a tranquilidade da cidade pitoresca e, sendo assim se casou rapidamente.
Na casa morava também a velha mãe de Camila, essa não incomodava em nada a vida do casal, até fazia companhia para Camila que tinha uma vida quase que solitária e comum; não passava  grandes acontecimentos em suas vidas, mas do dia pra noite a vida cor de rosa de Camila se transformou e uma aparente distância e indiferença do marido sacudiu sua vida.

Um novo contrato de trabalho para Diego o fez trabalhar na cidade vizinha, esta cidade era mais agitada e muitos homens se locomoviam longe de suas famílias atrás de melhores ganhos e, junto a essa movimentação da cidade, certas mulheres também eram atraídas, aonde se deslocavam de outras cidades a procura de boas aventuras.
Nas primeiras semanas de trabalho Diego teve que dormir no alojamento da empresa, era normal depois do trabalho a maioria dos homens irem  jogar um baralho, uma sinuca ou bilhar nos bares da redondeza e, como toda casa noturna, ali se encontravam uma máquina de música, bebidas e sempre uma mulher   solta a procura de um aventureiro. Sendo assim, Diego quase que inocentemente cai na teia de uma delas.

A semana passou demoradamente pra Camila, ela ansiava em ver seu marido de volta, vivia sentada na varanda em companhia da mãe e das borboletas que se alimentavam do néctar das flores, ali ficava as tardinhas ansiando pelo marido. Houve uma sexta feira que passou a tarde toda com o olhar fixo na estrada de terra batida, naquele dia algumas nuvens se juntavam no céu e caia uma chuvinha fina e alegre, o cheiro da terra já subia nas narinas de Camila onde a fez se sentir bem. Ao longe ela já via uma camisa xadrez vermelha e preta, onde ombros largos a sustentavam no ar, seu coração dispara e seus olhos brilham, era Diego e, logo em breve ela estaria nos braços de seu amado.

Diego já banhado se senta a mesa, ele de olhar vago comia dos manjares de sua mulher, ela ao seu lado feito uma boa amante o respirava e o alimenta de amor e de boas iguarias, afinal ele tinha se ausentado por um bom tempo, mas ela notava algo diferente nele.
Ele  termina a refeição e a  pega  pelos braços e a carrega para varanda, lá os dois ficam na cadeira de balanço, abraçadinhos e a lua cheia esplendorosa da um toque na cena.

Durante os domingos era dia de irem à missa e religiosamente à praçinha da cidade, lá tomavam um sorvete, observavam as crianças correndo e gritando alegremente. Planejavam um dia em ter filhos, mas não tão cedo. Depois de horas vão felizes para casa em sua caminhonete repleta de lembrancinhas da feira de artesanatos.
Camila levanta cedo na segunda feira e depois do desjejum vai lavar as roupas de uso da semana; Diego havia saído as cinco da manha, ele antes de sair passou a mão nas melenas de Camila e a beija na testa; essa foi à última imagem vaga que a mulher tinha em sua mente de Diego.

 Camila levanta tarde aquele dia e vai à lavanderia, quando pega as roupas de Diego sente um cheiro diferente, um perfume adocicado, aquilo a fez gelar e, pensar coisas estranhas, mas para sua surpresa havia um bilhete escrito com batom, parecia coisa armada, qual homem casado, deixaria uma evidencia tão forte de uma tola traição.
O mundo caiu para Camila, ela estava sentido algo que nunca tinha sentido antes, insegurança, medo, ciúmes e nojo. Ela decide ir atrás de Diego no mesmo instante, então larga os afazeres de casa e, se enfeita toda. Ela vai para o centro da cidadela, onde compra uma passagem de ônibus até a cidade vizinha.

Camila já hospedada num pequeno hotel se banha e se arruma, onde prende os cabelos, se maquia fortemente, coloca um chapéu que escondia parcialmente seu rosto, veste uma roupa nova que tinha comprado na cidade e se transforma numa nova mulher. Ela espera a noite cair e sai para os bares noturnos. Como era uma segunda-feira o movimento não era tão intenso, mas os trabalhadores da redondeza sempre passavam nos locais para um drago ou uma conversa com outros colegas de trabalho.
Ela chega e senta num lugar afastado do balcão e, de lá observa quem entra e sai. Passam horas e nada, parecia ter sido em vão sua sentinela naquele estabelecimento, ela se levanta para ir embora, mas quando olha a frente magicamente vê Diego entrando, seu coração dispara e ela volta a se sentar. Ele senta num banco próximo ao balcão e pede uma bebida, depois se levanta e coloca uma música na máquina.
Camila às escondidas com de cabeça baixa e olhos sorrateiros observa tudo ao seu redor e, quando menos se da conta entra um bela mestiça e o abraça pelas costas, Diego a afasta meio que surpreso e como não estava gostando do acontecido, ela emburrada e desprezada se senta longe dele.
A situação de Camila estava embaraçada, tinha medo de sair e ele a ver, então ficou ali mesmo horas sorvendo seu suco, ela tomou coragem e pediu uma bebida alcoólica.
De repente no estabelecimento entra uma loira de estatura mediana e de seios opulentos, era uma Marilyn Monroe da vida, Diego sorri e ela retribui o sorriso de flerte e, num abraço e beijo quente tudo se confirma. Camila não acreditava no que enxergava em sua frente, ela sentiu náuseas, vontade de chorar e gritar, mas se segura e caminha para a saída rapidamente e, passa despercebida aos dois amantes.
Ela entra no hotel e corre para seu quarto, se despe e entra no chuveiro, ali fica horas chorando desesperadamente. Sai do banho e olha se no espelho, seus olhos vermelhos e inchados demonstram outra mulher, ela suspira fundo, engole o choro e diz para si mesma:

 -Isso não vai ficar assim, ele me paga, anos de dedicação e carinho... Não! ...Não ficara assim.

Camila pega sua pequena mala e volta pra sua casa e conforto, o que era um lar luminoso viraria agora um lugar turvo e confuso. Camila foi até a edícula que sua mãe se estalava e, lá a abraçou e conversou um pouco, a velha como sempre tranquila lhe aconselhou como pode.
Camila não tinha animo para fazer mais nada em casa, assim a semana passou e, quando Diego chega vê a casa meio que bagunçada. Ele estranha a situação, primeiro dela não estar na varanda a sua espera e pela casa desarrumada, ele caminha até o fogão e não acha nada para comer, abre a geladeira e vê um mingau de aveia com banana, comida que sua sogra comia em sua dieta.
Ele caminha até o quarto e vê Camila deitada.
 -Boa noite amor!...
-Boa noite Diego...
Que há Camila, não se sente bem minha querida?
Ela se levanta e o fita nos olhos e interpela.
- Esta tudo bem, apenas indisposta. Como foi sua semana?
- Ah, tudo bem, muito trabalho como sempre.
Ele a abraça, ela se esforça para não deixar transparecer que sabia de tudo.
- Vou preparar algo para comer, está com fome?
Enquanto Diego se banha, ela faz uma fritada de ovos com torradas, Camila sempre foi rápida e organizada na cozinha, se tinha alguém prendada, ali estava uma e Diego se alimenta feito um urso faminto.
Camila arruma a mesa para Diego e volta para o quarto, coloca uma musica antiga, segura seu choro, afinal sua mágoa não era pouca e em pouco tempo adormece.

Era noite de lua cheia, próximo à casa do casal tinha uma clareira num pequeno bosque e durante a noite Camila se desloca para lá, as trilhas estavam firmes e claras, pois a lua gigante a iluminava, lá se ouvia o pio da coruja, o sons de pequenos seres como gambás e guaxinins. E Camila estava bem acompanhada, afinal ela entrava em sintonia com os seres viventes do bosque. Na clareira sentou se numa pedra e sua fúria parecia aumentar ali, de repente se levanta coloca suas mãos ao céu e começa a invocar os seres da natureza, ela era filha de ciganos, em sua veia corria o mistério e a força cigana. A lua muda de coloração, os sons se calaram na floresta, ela corre entre as trilhas, cada vez mais se afasta de sua casa completamente, ela se depara com um pequeno lago, de joelhos ela olha sua imagem nitidamente nas águas, era outra mulher, outra feição, uma mulher marcada com feridas profundas, ela suspira e fecha os olhos, depois de tempo abre e enxerga no reflexo da água uma bela loira de seios opulentos, com olhos azuis profundos, a boca rosada e sobrancelhas arcadas e marcantes. Camila sorri por dentro, se levanta e volta satisfeita pra sua casa.

Diego chegou com flores aquela sexta a noite, a mesa do jantar estava posta, sua troca de roupa encima da cama do casal, seu chinelo de descanso no chão, tudo estava perfeito e impecável; Camila veio até seu marido, ela estava cheirosa e sedenta, seus cabelos estavam presos, mostrando seu belo pescoço longilíneo, seus olhos brilhantes e a boca cheirando a hortelã.
Ela o beija profundamente e, morde seu lábio superior, ele grita.
- Calma, meu amor!...Que acontece aqui? Ele sorri maliciosamente.
- Tenho uma surpresa pra você Di, vamos ao quarto...
- Surpresa?... Hum, que passa nessa sua cabecinha...
Ela o puxa pelos braços leva até o quarto o empurra o na cama,
tira uma tira do debaixo do travesseiro e a amarra uma de suas mãos e depois a outra.
Ele fica perplexo com tudo aquilo, ela nunca tinha iniciado uma relação,  sempre ele a procurava,ela pega uma garrafa de vinho que estava embaixo da cama e toma um gole e através de sua boca da para Diego  um gole e assim esvaziam uma garrafa e depois mais outra. Aquela noite eles se devoram e, depois de horas voltam ao incansável amor.

Camila tinha resgatado Diego, a cada semana era uma mulher diferente, ela própria se sentia uma mulher diferente, suas visitas à clareira e ao lago eram constantes em noites de lua cheia; cada vez que se via no lago se via uma nova e bela mulher.
O trabalho de Diego acabara naquela cidade vizinha, tudo na casa voltou ao normal, a não ser que cada vez nas semanas de lua cheia, Diego sentia que tinha em mãos uma nova mulher.





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